De acordo com observadores, a única influência exercida na votação desse mês, em Monaco, para banir a pesca do atum de barbatana azul do Atlântico (Atlantic bluefin tuna), era a da indútria de pesca. Acho que você já deve ter adivinhado o resultado da votação, certo?
Pois é, segundo o grupo da ONU que regula e restringe o comércio de espécies ameaçadas, a pesca excessiva desse tipo de atum — uma espécie de ‘arroz-com-feijão’ do sushi — já reduziu a população em 85% desde o início da pesca industrial e até 2012 deve terminar o serviço de extingui-lo completamente.
A pressão dos watchdogs sobre instituições reguladoras, portanto, é essencial.
Mas e o consumo? Quem consome o ‘bluefin‘ sabe que ele vai acabar?
“Não pode ser”, pensamos, “eu nunca consumiria uma espécie ameaçada”. Mas não é bem assim. O consumidor japonês tem consciência do perigo de extinção do bluefin, contudo a tradição alimentar está na base da cultura de um povo e é necessário muito mais do que somente denunciar e pressionar autoridades para alterar um costume arraigado como este.
É isso que os conservacionistas estão deixando passar: uma estratégia de influência sobre o elo mais forte da cadeia — o da demanda — que gera o incentivo econômico à pesca.
Enquanto o foco das denúncias recai sobre o lucro da indústria com a pesca do bluefin, a população consumidora é informada do problema, mas não reconhece sua validade: vê a proibição do comércio como uma perseguição à população e à cultura japonesas!
Em matéria recente da CNN o consumidor japonês expressa a crença de que a “perseguição à pesca do bluefin” é somente a ponta do iceberg e que, depois dele, muitas outras espécies serão banidas do comércio.
O equívoco da Monsanto
Lembra-se da surpresa com que a Monsanto recebeu a onda mundial de protestos contra suas sementes transgênicas? Subitamente, figuras públicas como o Príncipe Charles, da Inglaterra, apareciam diariamente na mídia, condenando a tecnologia de melhoramento genético da empresa.
A Monsanto pensava que só precisava dialogar e influenciar a comunidade de técnicos e empresários agrícolas e este equívoco custou centenas de milhões de dólares à empresa.
Agora parece ser a vez do campo adversário — os ambientalistas — cometerem o mesmo equívoco, no caso do bluefin.
Enquanto isso, a indústria da pesca parece saber jogar melhor o jogo da influência, mesmo longe da opinião pública. Observadores da votação em Monaco comentam que “o lobby japonês é formidável; três ou quatro membros da delegação japonesa estão constantemente cruzando a Convenção, agendando reuniões”.
Nessas reuniões, diversos argumentos de influência são empregados. Com países da América Latina, dependentes de exportação de pescados, por exemplo, empregam argumentos na linha “você será o próximo”.
Jogue xadrês, não jogo-da-velha
É claro que a tendência a economizar esforços nos induz a reduzir o número de interlocutores que desejamos alinhar a um mínimo. Entretanto, o preço de deixar agentes importantes fora da mesa pode ser muito alto, como no caso da Monsanto e, ao que tudo indica, no do bluefin.
Independentemente do objetivo, a estratégia de influência amplia o tabuleiro do jogo, assim como o repertório de movimentos possíveis ao jogador.
O que você faria?
Como você desenharia uma estratégia para influenciar não apenas os reguladores, mas também a opinião pública japonesa, a reduzir a pesca do bluefin?
Que influenciadores você tentaria alinhar, para difundir sua mensagem?
Você empregaria algum mecanismo de pressão? De incentivo?
Envie-nos seus comentários e insights sobre este tema controverso.






Ola Fernanda,
#Gostei muito do artigo, parabens! Para mim esta questao trata de um ponto critico que é o engajamento de stakeholders. Uma boa estratégia tem que mapeá-los, identificar seus interesses, preoupações e poder de influência e então buscar uma solução que alavanque os objetivos em comum.
Este assunto (engajamento) está muito presente no meu blog, se voce tiver interesse dê uma olhada e me diga o que vc acha, ok?
Abracos,
Sueli