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Consultoria de estratégia e liderança

Do berço ao berço ou do berço à cova?

Cradle to Cradle: Remaking the way we make things – North Point Press — First edition: 2002

Por Sueli Chiozzotto
Sócia da prática de sustentabilidade da MGM Partners

Cradle to cradle capa livro sustentabilidade e negócios

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“As únicas grandes companhias que conseguirão ter êxito são aquelas que consideram os seus produtos obsoletos antes que os outros o façam.”

Bill Gates

Qual é o modelo mais inteligente: cradle to cradle ou cradle to grave?  Esta e outras questões provocadoras, com respostas ainda mais instigantes, são colocadas para as empresas pelos autores de Cradle to Cradle, William McDonough (arquiteto) e Michael Braungart (químico).

Para McDonough e Braungart, o desenvolvimento sustentável (definido pela primeira vez em 1987 no relatório de Brundtland*), não se trata apenas de uma questão para comissões globais, governos e organizações não governamentais. Mas, sim para as empresas que através de seus sistemas produtivos impactam diretamente o planeta e seus habitantes.

De acordo com Bill Gates, só quem consegue identificar o obsoleto terá êxito, e parece claro que nosso sistema de desenvolvimento já esta se tornando coisa do passado. Mas, ao contrário do que se pode pensar, esta não é uma má notícia! E sim, uma grande oportunidade de diferenciação e crescimento.

Cradle to Grave:

Tudo o que produzimos e consumimos é incinerado ou enterrado — a cova é o destino comum para todos os produtos e materiais.  Mas, como na Terra “nada se cria tudo se transforma”, estes materiais tornam-se resíduos — alguns poluentes, tóxicos e até mesmo perigosos.  Resíduos que destroem a capacidade de recuperação do meio ambiente e que impactam significativamente a saúde do ser humano.

Fica claro que o modelo do “berço para a cova” não é a solução mais inteligente, lucrativa e perene para as empresas.  Desperdiçar matérias-primas, destruir recursos naturais, gastar na correção de impactos negativos e no alinhamento a legislações complexas, perder clientes e/ou viver sob o escrutínio da sociedade preocupada com o aquecimento global, o câncer e outros males que afetam a vida na Terra, são os impactos de um modelo de desenvolvimento que rapidamente está se tornando obsoleto.

Sabe-se que as empresas já avançaram muito na redução de impactos, através da ecoeficiencia e da busca pela sustentabilidade. Iniciativas necessárias, mas suficientes? Ser menos mal é realmente melhor do que criar algo genuinamente bom?

Cradle to Cradle:

O modelo do berço ao berço, proposto pelos autores, traz uma solução inovadora para o desafio do desenvolvimento sustentável.  Eles propõem que o homem continue a consumir e a se desenvolver, porém, que ao invés de destruir o meio ambiente, deve “alimentar” o ciclo biológico da Terra (waste equals food) e o ciclo tecnológico das indústrias.  O que não puder ser utilizado como “nutriente para o meio ambiente”, deverá ser quebrado em elementos que possam ser reabsorvidos pelas indústrias como matéria-prima de qualidade (os autores condenam o downcycling).  Criam-se assim, novas formas de produção, construção e utilização de recursos naturais e matérias-primas mais eficaz, econômica e sustentável.  Os autores também sugerem que o modelo de negócios futuro, será baseado principalmente no valor dos serviços e não propriamente nos produtos.

O livro traz vários casos de empresas que adotam o modelo cradle to cradle nas mais diversas escalas.  A Ford, por exemplo, renovou inteiramente sua planta industrial em River Rouge (Michigan, EUA), tornando-se um dos melhores exemplos dos impactos positivos de um site de produção sustentável.  Além disso, a Ford vê a planta de River Rouge, como um laboratório para a criação de produtos inovadores, e ainda economizou US$35 milhões.  Outras empresas como Nike, SC Johnson, Dow Chemical, Du Pont, e Herman Miler também estão aplicando o cradle to cradle.

Como avançar?

Os autores propõem uma re-evolução industrial e uma ferramenta para análise crítica de produtos e modelos de negócio, considerando o impacto e as interconexões de: ecologia, igualdade e economia.

Além disso, indicam os cinco passos para atingir a eco-efetividade:

1. Livrar-se dos culpados conhecidos, entre eles: cloreto de vinil, cádmio, mercúrio, chumbo, asbestos, benzeno, trióxido de antimônio, cromo, etc.

2. Seguir preferências pessoais de forma educada: na escolha das matérias primas, prefira aquelas que atendem a necessidade do produto, mas que dentro dos conhecimentos atuais, menos impactam o meio ambiente e o ser humano.  Prefira ecologicamente inteligente (menor impacto negativo), respeito (aos produtores, comunidades e clientes) e divirta-se (inclua criatividade no design e prazer no usar).

3. Criar uma lista “passiva positiva”, isto é, busque ativamente os componentes e materiais das matérias-primas. Inove e crie matérias-primas com menor ou nenhum impacto (social e ambiental) e que atendam a função original.

4. Ativar a lista positiva: aqui é onde o redesenho realmente começa, pare de tentar ser “menos ruim” e descubra como ser bom.

5. Reinventar, não se contente apenas em criar produtos que alimentem o ciclo biológico e tecnológico: “não crie um carro, crie um nutri-veículo, ou seja, um carro que tenha emissões positivas e gere efeitos nutritivos para o meio ambiente”.

Afinal, como dizem os autores: “Imagine como será o mundo de prosperidade e saúde e comece desenhá-lo agora mesmo… Todos nós seremos necessários e levará um tempo infinito. Mas, afinal, este é o ponto.”

O livro:

Para provar que é possível inovar, agradar aos consumidores e aplicar o modelo cradle to cradle, o livro, lançado originalmente em 2002 pela North Point Press, é confeccionado em papel sintético feito de resinas plásticas e fibras inorgânicas. É durável, a prova d’água e reciclável, um protótipo de nutriente do ciclo tecnológico mencionado.

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Nota:

* “A humanidade tem a capacidade do desenvolvimento sustentável assegurando que sejam atendidas as necessidades do presente, sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atenderem a suas próprias necessidades.”, United Nation’s World Comission on Environment and Development, Our Common Future, 1987

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